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Câmara de Contagem aprova permuta de imóvel público milionário com laudo de avaliação vencido

Câmara de Contagem aprova permuta de imóvel público milionário com laudo de avaliação vencido Câmara de Contagem aprova permuta de imóvel público milionário com laudo de avaliação vencido

Imóvel avaliado em R$ 5,86 milhões tinha laudo vencido; documentos foram publicados somente no dia da votação

Guilherme Jorgui

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Imóvel avaliado em R$ 5,86 milhões tinha laudo vencido; documentos foram publicados no dia da votação. Foto: Cleide Amaral / Comunicação CMC

Com a avaliação do imóvel público vencida há um ano e sete meses e laudos formalmente incluídos no sistema da Câmara Municipal de Contagem somente no dia da votação, o presidente da Casa, Bruno Barreiro (PV), colocou para votação o projeto de lei que autoriza a entrega de uma área municipal, no coração comercial do bairro Eldorado, em troca de imóveis privados.

Avaliado em R$ 5,86 milhões, o terreno público fica na esquina das avenidas João César de Oliveira e José Faria da Rocha — duas avenidas importantes da região.

A proposta foi aprovada, em primeiro turno, pelos 20 vereadores presentes à sessão da terça-feira (8) passada.

O projeto avançou cercado por imprecisões nos pareceres das comissões, sem a demonstração concreta do interesse público e que a Casa soubesse se o município ainda teria de pagar uma compensação financeira pela permuta. Os documentos só foram incluídos no sistema da Câmara no dia da votação.

Segundo apuração de O Fator, coube ao líder do governo na Câmara, Daniel do Irineu (PSB), apresentar esclarecimentos aos demais vereadores minutos antes da votação.

Detalhe: a legislação condiciona a alienação ou permuta de imóveis públicos à existência de interesse público devidamente justificado, requisito que não foi demonstrado.

A prefeitura limitou-se a mencionar a ampliação de uma praça e a futura implantação de um equipamento público não identificado — sem apresentar projeto, estudo de demanda, análise de viabilidade ou comparação com outras alternativas.

As comissões da Câmara reproduziram essas finalidades genéricas sem explicar por que a permuta seria necessária e mais vantajosa para Contagem do que a manutenção do terreno municipal.

A permuta

A operação envolve um imóvel público de 1.363,14 metros quadrados, em uma das áreas mais valorizadas do Eldorado, principal centro comercial da cidade.

Em troca, a prefeitura receberá cinco frações contíguas junto à Praça da Jabuticaba, que somam 847,82 metros quadrados, e outro imóvel de 2.593,86 metros quadrados, também no Eldorado.

A área no Eldorado que será dada à prefeitura ainda depende de uma retificação em sua matrícula.

De autoria do prefeito Ricardo Faria (PSD), a mensagem do projeto de lei que autoriza a troca afirma que os bens foram “previamente avaliados” e que “seus valores são compatíveis”.

A proposição enviada à Câmara, entretanto, não informava quanto vale cada imóvel, não apresentou um quadro comparativo e não indicou se haverá pagamento em dinheiro para compensar eventual diferença.

Área pública na esquina das avenidas João César de Oliveira e José Faria da Rocha, no Eldorado, está destacada em azul. Imagem: Reprodução/Google Earth

Procuradoria da Câmara foi a única a analisar objetivamente a operação

Entre as instâncias da Câmara que se manifestaram formalmente sobre o projeto, a Procuradoria-Geral foi a única que analisou objetivamente os requisitos da permuta.

A assessoria jurídica apontou a ausência dos laudos, explicou por que a metragem não comprova equivalência econômica, identificou a possibilidade de o município pagar uma compensação e indicou as exigências orçamentárias aplicáveis. Também advertiu que, se Contagem figurar como devedora da compensação, a despesa exigirá estimativa de impacto, dotação específica e empenho prévio.

As demais comissões recomendaram a aprovação sem demonstrar que essas ressalvas haviam sido superadas.

A Comissão de Legislação, Justiça e Redação Final, por exemplo, declarou acompanhar a Procuradoria, mas reproduziu apenas a conclusão favorável à tramitação, omitindo a ausência dos laudos, a necessidade de comprovar a equivalência e os alertas sobre compensação e cobertura orçamentária.

Já a Comissão de Administração e Serviços Públicos afirmou que a permuta não causaria prejuízo ao interesse coletivo, mas não apresentou os valores dos imóveis, cálculo comparativo ou memória financeira. O parecer também não examinou as condições físicas das áreas, a pendência registral de um dos imóveis ou a destinação das edificações envolvidas.

O mais inconsistente é o parecer da Comissão de Meio Ambiente. Ele foi datado de 19 de maio, embora o projeto tenha sido apresentado somente em 3 de agosto. O documento também não analisou solo, infiltrações, inundações, drenagem ou capacidade construtiva, apesar de o laudo da Praça da Jabuticaba classificar o terreno como úmido ou inundável.

Mesmo sem estudos ambientais, geotécnicos, hidrológicos ou de drenagem, a comissão aprovou a proposta e mencionou possível atendimento a “demandas habitacionais”, finalidade que não aparece na mensagem do Executivo.

Laudos vencidos e contas que não fecham

Após solicitação de manifestação, pela reportagem, à Câmara Municipal, pela forma como se deu a aprovação do projeto, os laudos passaram a circular entre alguns vereadores e O Fator conseguiu acessá-los.

O laudo do terreno público contém uma limitação que não foi enfrentada nos pareceres das comissões: a avaliação, assinada em julho de 2024, tinha validade de apenas seis meses. Quando Bruno Barreiro colocou o projeto em votação, na terça-feira passada, o documento estava vencido há um ano e sete meses.

As avaliações também não adotam a mesma referência temporal. O laudo do imóvel municipal é de julho de 2024; o da Praça da Jabuticaba mantém a mesma data-base, embora tenha sido revisado e assinado em 2026; e o terreno privado da Rua Portugal foi avaliado em outubro de 2025. A Câmara não apresentou atualização que colocasse os três imóveis sob uma mesma data de referência.

O terreno público localizado na esquina das avenidas João César de Oliveira e José Faria da Rocha, foi avaliado em R$ 5,86 milhões. O próprio laudo descreve o Eldorado como o maior centro comercial da cidade, reconhecendo a localização privilegiada do imóvel.

Na Praça da Jabuticaba, o laudo atribuiu R$ 1.137 milhão ao terreno de 847,82 metros quadrados e R$ 1.1 milhão à edificação de 359 metros quadrados, o que dá um valor total de R$ R$ 2.2 milhão.

O valor final, porém, foi fixado tem uma diferença, a maior, de R$ 22 mil, o que equivale a 1%.

No laudo da Praça da Jabuticaba, a primeira divergência está no cálculo da edificação de 359 metros quadrados. O imóvel foi classificado como “CSL-8”, padrão destinado a construções comerciais divididas em salas e lojas, mas a avaliação utilizou o custo do “CAL-8”, referente a edifícios comerciais com andares livres.

O metro quadrado do CSL-8 custava R$ 2.406,92 na tabela adotada. O laudo, porém, aplicou os R$ 2.776,72 correspondentes ao CAL-8. A diferença acrescentou R$ 132,7 mil ao custo bruto da construção.

A avaliação também foi feita sem vistoria interna do imóvel. Além disso, utilizou o Custo Unitário Básico de junho de 2024 e amostras imobiliárias coletadas em 2023 e 2024. Embora classifique o terreno como úmido ou inundável e registre infiltrações e inundações no subsolo, o laudo não informa quanto essas condições reduziram o valor do imóvel.

O laudo do terreno da Rua Portugal apresenta outras divergências. A memória de cálculo informa fator de comercialização igual a 1,00, que manteria a avaliação em R$ 3,78 milhões.

A fórmula seguinte, entretanto, utiliza o fator 0,95, equivalente a uma redução de 5%. Nesse caso, o resultado cairia para aproximadamente R$ 3,59 milhões — diferença de R$ 189 mil não explicada no documento.

O que diz a Câmara

Em resposta ao O Fator, a Câmara informou que os laudos não acompanharam originalmente o projeto, mas teriam sido enviados pelo Executivo à Liderança do Governo em 17 de agosto. A inclusão formal dos documentos no Sistema de Apoio ao Processo Legislativo (SAPL) ocorreu somente em 8 de setembro, dia da votação em primeiro turno.

A Casa atribuiu o atraso à instabilidade do SAPL, que estaria passando por migração, e afirmou que os laudos foram disponibilizados aos vereadores antes da votação.

Em linhas gerais, a Câmara atribuiu as inconsistências da tramitação à divisão de competências entre as comissões e a erros formais: afirmou que a Comissão de Legislação se restringiu ao exame jurídico, confirmou que a de Administração não fez cálculos próprios e reconheceu que a de Meio Ambiente decidiu sem estudos técnicos específicos sobre a área da Praça da Jabuticaba, além de ter registrado no parecer uma data anterior à apresentação do projeto.

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    Fonte: O Fator

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